A modernização da sexualidade

Imagine que você está fazendo uma pesquisa, e para isso precisa elaborar um questionário. Junto do nome, idade e sexo você chega a conclusão de que é importante perguntar também sobre sexualidade. Como você elaboraria a questão?


"Orientação sexual: [ ] Heterossexual. [ ] Homossexual."

Talvez quem sabe seja uma boa ideia incluir uma terceira opção…


"Orientação sexual: [ ] Heterossexual. [ ] Homossexual. [ ] Outro."

Mas este "outro" pode ser tanta coisa….


"Orientação sexual: [ ] Heterossexual. [ ] Homossexual. [ ] Bissexual. [ ] Pansexual. [ ] Assexual. [ ] Demissexual…"

Talvez você enfrente mais um problema ao escolher discriminar todas as alternativas possíveis: a falta de folhas.


A busca pelo prazer juntamente da crescente liberdade social que experimentamos são um terreno fértil para novas experiências, e com elas, novas percepções de si e do relacionamento com o outro. Descobrimos que existem infindáveis formas de amar a si mesmo e ao outro, e quando digo isso não é apenas no sentido romântico do verbo, mas também nos quesitos práticos do ato sexual. A sexualidade e o sexo se tornam cada vez mais diversos conforme incluímos tecnologias, culturas, dinâmicas interpessoais e de grupo. Poliamor, demissexualidade, "waifu", fetiches; estes são apenas alguns dos termos que passaram a povoar a nossa nova "mente suja".


Porém existe um grupo que "ficou para trás" nessa corrida contra o tempo…


O homem heterossexual


Como um animal em extinção, acuado e sem conseguir acompanhar as mudanças do ecossistema moderno, o homem heterossexual tenta sobreviver da forma que pode. Voltar no tempo não é uma opção. Se adaptar porém, não é uma tarefa fácil. Lembro de uma história que aconteceu a muitos anos atrás quando eu ainda estava no ensino médio (imitando voz de velho). Uma pequena agitação corria pelo colégio pois estavam dizendo que um dos professores era "metrossexual". Eu sabia que se tratava de algo relacionado a sexo, mas o "metro" não me dava nenhuma pista do assunto. Foi então que um dos colegas me explicou da seguinte forma "metrossexual é um cara que gosta de se cuidar e se arrumar mas não chega a ser gay".


Para a época foi uma explicação boa o suficiente. Mas vamos refletir um pouco sobre essa definição. Um homem que gosta de se cuidar, um homem vaidoso, mas que não chega a ser gay. Quer dizer que um homem que toma banho com frequência, corta as unhas, usa perfume, passa gel no cabelo e usa roupas da moda é menos heterossexual que um homem que não faz nada disso? Onde está o sexo nessa definição? Se partirmos da ideia de que a sexualidade se manifesta na relação com o outro, seja uma pessoa, objeto ou a completa ausência de um desses; como que o grau de higiene pessoal interfere nessa questão? Se usarmos essa lógica não estaríamos perdendo nossa heterossexualidade masculina conforme nos acostumamos, como sociedade, a escovar os dentes e tomar banho diariamente? Quer dizer que o homem heterossexual de verdade é aquele de séculos atrás que tomava banho uma vez por mês, não escovava os dentes e "aliviava o estresse" na esposa antes de dormir? Se bem que estresse talvez seja uma emoção muito nova para este homem heterossexual raiz.


Por algum motivo a figura do homem heterossexual ficou parada no tempo. Mulheres reinventaram sua sexualidade através de movimentos sociais feministas. Homens homossexuais lutaram, e ainda lutam, pelo direito de expressar sua sexualidade sem medo de sofrer violência. Enquanto tudo isso acontecia o homem heterossexual se manteve praticamente inalterado. Mas porquê?


Me lembro de uma das diversas vezes em que abri minha boca quando não devia e acabei causando um momento de silêncio e constrangimento que foi seguido por um surto de respostas e comentários. Eu estava no aniversário de um amigo e, como de se esperar de um grupo de jovens adultos bebendo, o assunto começou a ir na direção da sexualidade. Foi então que eu resolvi dizer o seguinte:


"... Porque todo homem tem medo de, ao dar o fora em uma mulher, se sentir, ou ser taxado, menos homem…"

Entre todas as possíveis sexualidades de um homem, nenhuma delas se apoia mais em questões de virilidade e potência sexual do que a heterossexualidade. E para um homem heterossexual perder este status pode ser um golpe crítico e final em sua identidade sexual. O medo de que isto aconteça é tão grande que duas formas disfuncionais de lidar com isso se tornaram práticas tão comuns que mal conseguimos distingui-las da sexualidade em si.



A fuga e a hiper compensação


Fuga é quando exibimos um comportamento que, ao invés de tentar solucionar o problema, nos distrai ou desvia do mesmo às custas de impedir que encontremos uma solução para o que nos afeta. Vamos usar de exemplo alguém com medo de cachorro. Se essa pessoa atravessa a rua pois sabe que na casa mais a frente tem um cachorro no pátio ela talvez esteja exibindo um comportamento de fuga. Tudo vai depender do quanto ela reconhece o próprio medo e o quanto essa evitação a impede de encontrar uma solução para o problema. Ninguém gosta de ficar desconfortável, porém evitar o desconforto a todo momento, as custas de outras coisas boas, é um problema. Da mesma forma, um homem com medo de enfrentar a perda de virilidade, pode criar mecanismos para fugir de situações onde exercer essa virilidade seria necessário. Padrões mega exigentes, dedicação excessiva a outras áreas da vida, ou o simples isolamento, são formas de o homem heterossexual fugir de situações onde sua virilidade pode ser ferida.


Porém mais comum que a fuga é a hiper compensação. Uma pessoa com medo de cachorro pode hiper compensar isso exibindo um comportamento extremamente oposto ao esperado. Ao invés de atravessar a rua ela caminha perto da grade e provoca o cachorro para que ele lata e rosne através da grade. Tudo numa tentativa de provar para si, e para os outros, que ela não tem medo de cachorro. O problema é que nem sempre vai ser possível fazer essas encenações sem realmente se expor ao objeto de medo. Se a grade não existisse, provavelmente essa mesma pessoa que provocou o cachorro não iria se sentir confortável o suficiente para provocar ou afagar o animal. Agora, para me poupar de filtrar entre os milhões de exemplos possíveis, quero que você pense em situações onde homens costumam se gabar da própria virilidade e performance sexual. Bem fácil não é mesmo? Esse comportamento hiper compensatório é tão comum que saber expressar a sua sexualidade sem se vangloriar tornou-se uma tarefa muito difícil para o homem heterossexual moderno.



A solução


A solução para estas duas estratégias disfuncionais é bem simples: exposição. Uma pessoa que tem medo de cachorro só irá superar esse medo se expondo e interagindo com cachorros. Isso pode ser feito basicamente de duas formas: inundação e dessensibilização sistemática. A estratégia de inundação é a menos utilizada e a que envolve maiores riscos. Eu poderia, por exemplo, tratar uma pessoa com medo de cachorro da seguinte forma: eu pego uma salinha pequena de escritório, coloco uns vinte cachorros lá dentro e, por fim, largo meu paciente dentro da sala. Sua ansiedade vai nas nuvens. Mas o que geralmente não se sabe é que ela tem um limite. Depois de um tempo nesse limite a nossa ansiedade começa a diminuir e, ou a pessoa percebe que filhotinhos de labrador não são tão terríveis quanto parecem… ou o seu medo piora mais ainda. Por isso que técnicas de inundação são pouco utilizadas: pois existe o risco de elas se tornarem um tiro no pé. Sem falar que muitas vezes o medo, apesar de extremamente exagerado, tem um certo fundamento prático. Dentinhos de filhotes de labrador podem causar sérios ferimentos nos dedos e nas mãos.


Já a dessensibilização sistemática apresenta bem menos riscos e é um processo muito menos estressante para o paciente. Em um caso de medo de cachorro o paciente poderia relatar suas experiências anteriores, fazer exercícios de visualização, olhar uma sequência de fotos, escutar um áudio de latidos, ver um filme de cachorro, tudo em passos pequenos e graduais até o ponto de interagir com o animal. Mas como podemos aplicar esta lógica de exposição gradual na sexualidade masculina? Será que o homem tem espaços seguros onde pode relatar suas experiências? Escutar o que outros homens tem para falar? Uma parceira que irá ajudá-lo a experimentar algo diferente? Cabe a nós, homens e mulheres, buscar e criar ambientes para que esta nova forma de virilidade possa ser exercitada e expressa.



Esse texto é muito especial para mim pois é o primeiro texto que publico em parceria com a @teasemesexshop. Idealizada por uma amiga e colega do Comitê de Sexualidade da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul (SPRGS), a Tease Me Sex Shop é uma loja online de produtos eróticos que tem diversas alternativas que podem te ajudar a diversificar, experimentar e apimentar a relação. Sou obrigado a admitir que fiquei com um certo medinho quando minha amiga entrou em contato dizendo que ia me mandar uma "caixinha" com alguns produtos para eu experimentar. Falar sobre o assunto é fácil, agora aplicar tudo que foi dito em nós mesmos… aí o buraco é mais embaixo hahaha!😏😏😏


Tudo chegou em uma caixa simples e discreta, bem embalado e lacrado, tanto que nem chamou a atenção de outras pessoas que me viram com um pacote nas mãos. Não existe forma de se garantir que uma nova experiência será positiva, porém podemos estar atentos a fatores que contribuem para que isso aconteça. Estar em um ambiente confortável, com parceiro(s) e/ou parceira(s) de quem gostamos, utilizar um produto de qualidade seguindo as instruções adequadas, tudo isso contribui para que possamos ter um momento de prazer mais… prazeroso, por assim dizer. Estou muito contente com o texto e principalmente com essa parceria. Agora eu te aconselho a seguir @teasemesexshop no Instagram, salvar o site teasemesexshop.com em uma pasta escondida dos seus favoritos e assim que tiver um tempinho livre e privado, dá uma explorada no que eles tem a oferecer. Eu aposto que você vai encontrar algo que não sabia que existia e algo que vai querer experimentar. Agora eu vou lá que é de noite, a janta está pronta, o Netflix está aberto e eu já escolhi qual produto da caixa eu quero experimentar.




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