Aborto: opinião ou coação?

O debate sobre o aborto não é nenhuma novidade. Parte da população defende que é um direito da mulher escolher se quer seguir adiante com uma gestação ou não, outra parte defende que é uma vida que está sendo privada de ter sua continuidade e que toda vida tem um valor inestimável. Por si só este é um tema complicado. Quando levamos em consideração questões como gravidez de risco, malformação do feto e estupro o debate fica ainda mais acalorado.


Infelizmente este debate ganhou atenção devido ao caso da menina de dez anos que ficou grávida decorrente das repetidas vezes que foi violentada pelo tio. Neste texto não irei abordar questões médicas ou éticas diretamente relacionadas ao abuso ou ao aborto em si. O que me chamou atenção foi uma reportagem que dizia o seguinte:

"Promotoria vai investigar se grupos tentaram pressionar avó de menina estuprada a não autorizar o aborto."


O limite entre o direito de opinião e coação


A verdade é que não existe uma resposta final para a pergunta "é certo realizar um aborto ou não?". Em se tratando de questões éticas tudo depende dos valores morais promovidos em uma sociedade.


Quando nos posicionamos contra a interrupção de uma gravidez estamos afirmando que toda vida é de um valor inestimável e por isso deve ser protegida a todo custo. Quando nos posicionamos a favor do aborto estamos defendendo a liberdade de escolha e tomada de decisão da mulher, em outras palavras, a soberania de um indivíduo sobre si. Neste caso temos um dilema moral que coloca em conflito dois valores: o direito a vida e o direito sobre o próprio corpo. Não é a toa que os movimentos sociais envolvidos neste debate se dividem entre pró-vida e pró-escolha. Mas o que fazer quando o outro não pensa da mesma forma?


A liberdade de pensamento e opinião é inerente ao ser humano. Ainda que necessite de exercício e incentivo ao longo da vida, todo indivíduo tem a capacidade de fazer seu próprio julgamento sobre o mundo ao seu redor e nada é capaz de controlar ou dominar seus pensamentos. Entretanto somos altamente influenciáveis e mudamos de opinião constantemente. Segundo a reportagem do portal G1 (link para o site) a Promotoria da Infância e da Juventude decidiu investigar se a avó da menina teria sido pressionada a não autorizar o aborto. Pesquisando sobre o caso encontrei um vídeo onde um grupo de pessoas grita em frente ao hospital chamando um dos médicos envolvidos no caso de assassino. O video abaixo mostra um pouco da confusão ocorrida em frente a unidade de saúde, tumulto que certamente oferece pouquíssimos benefícios.

Mas qual o limite entre defender o que se acredita ser o certo e atacar aquele que defende o oposto?


O compartilhamento das consequências


Vamos imaginar que duas pessoas estão em cima de uma ponte prontas para pular de bungee jump. Cada uma tem a sua corda e total liberdade para pular ou não. Uma delas diz que verificou ambas as cordas e que é seguro fazer o salto, a outra também verificou as cordas mas afirma não ser seguro fazer o salto. O fato de terem opiniões diferentes pode sim influenciar a decisão final de cada uma, porém ambas estão livres para decidir individualmente e sofrerão as consequências de sua decisão individualmente. Mudaria algo caso as duas estivessem presas a ponte pela mesma corda?


Certamente sim! Tenho certeza que a pessoa que defende que não é seguro saltar defenderia sua opinião com muito mais afinco se soubesse que, caso sua colega saltasse, seria levada junto e correria o risco de se machucar. Apesar de a decisão continuar sendo tomada individualmente, no segundo caso as consequências são compartilhadas entre ambas. Trazendo para uma situação mais próxima da realidade podemos pensar no caso de um motorista embriagado. Uma pessoa embriagada pode decidir dirigir ou não, esta é uma escolha individual. Porém ao dirigir embriagado ele coloca não apenas a si próprio mas também outras pessoas em risco. Mas quais seriam as consequências compartilhadas de um aborto?


A verdade é que as consequências práticas de um aborto não são compartilhadas. Quantos casos como este acontecem e não recebem atenção da mídia? Será que o desconforto, seja de uma vida ser tirada ou do cerceamento uma liberdade, está mais relacionado ao fato ou a consciência do fato? Claramente ao segundo. Mas porque saber que o outro está fazendo algo que desaprovamos nos agride tanto?


Vivemos em sociedade e somos levados a pensar que as qualidades e defeitos de uma sociedade se aplicam também ao indivíduo. Se vivemos numa sociedade corrupta é porque os indivíduos que formam aquela sociedade são corruptos. Essa é uma falsa premissa extremamente fácil de se acreditar. E ela pode ser ampliada até extremos onde julgamos que todo ser humano é inerentemente mau, ou que a vida como um todo não presta, mesmo quando na realidade ela é composta de momentos bons e momentos ruins. Ver no mundo algo que não gostamos nos agride porque somos parte desse mundo. Infelizmente nenhum de nós tem controle total sobre como o mundo é ou sobre o que outras pessoas pensam. Porém temos controle sobre nossas próprias decisões, sobre o que julgamos certo e errado, enfim, sobre nossa própria felicidade.







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