COMO SERÁ A SUA PÁSCOA?

Eu ainda lembro de quando a Páscoa lá em casa era a época de ganhar um cesto imenso de chocolates. Eu e meu irmão acordávamos na manhã de Páscoa na expectativa de encontrar nossos cestos em algum lugar da casa, com ovos de chocolate e bombons. Acho que às vezes também ganhávamos algum bicho de pelúcia ou boneco. Mas o que marcava mesmo era aquela quantidade imensa de chocolate.


No primeiro dia, ficávamos tão eufóricos que dava vontade de abrir tudo. Entretanto, tínhamos regras para comer: era apenas de sobremesa do almoço e/ou jantar e algumas vezes no lanche da tarde. No início isso nos aborrecia um pouco, mas logo esse sentimento passava. E aquele cesto durava meses, muitos meses, pois chegava uma hora que já não queríamos comer chocolate de sobremesa do almoço e jantar.


Lembro que cada um tinha seu cesto e escolhia o quê dele queria comer. Contudo, como tínhamos o hábito familiar de fazermos as refeições juntos, em família, sentados à mesa. Também comíamos o chocolate de sobremesa juntos, à mesa. Às vezes nos trocávamos, e quando não gostávamos muito de um chocolate ou víamos que nossos pais já não tinham mais chocolates (pois eles nunca ganhavam cestos tão grandes como os nossos), compartilhávamos algo com eles. Lembro também, que nessas ocasiões, meu pai sempre contava:


”Na minha infância eu e meus irmãos ganhávamos ovos de açúcar colorido. Que eram lindos aos olhos mas enjoativos de comer. Então nós comíamos com o café com leite!”


Eu achava aquilo espantoso demais! Também lembro que meu pai contava que na família deles, eles juntavam os ovos que todos haviam ganhado e repartiam igualmente entre todos da família. E eu pensava:




“Ufa! Ainda bem que aqui em casa não é assim!”







Outra lembrança muito nítida é que, em geral, não comíamos chocolate com frequência. A época de comer chocolate era na Páscoa e os meses subsequentes, enquanto ainda tínhamos chocolate.


Todas essas recordações me fazem pensar algumas coisas:


  • A primeira delas se refere às “regras do comer”.

Sei que a palavra “regra” pode soar um tanto quanto forte e rígida demais. Mas agora, sendo nutricionista, sei da importância de mantermos certos padrões em nossa alimentação. Por exemplo, se eu comer uma boa quantidade de chocolate na metade da manhã, talvez não tenha fome para comer comida de panela ao meio dia, que é o horário em meu dia que tenho disponibilidade para comer esse tipo de comida. Se não como comida de panela ao meio dia, posso ter muita fome à tarde, horário em que a minha oferta de alimentos se resume à frutas, bolachas e outros "snacks". Com muita fome, acabo comendo mais bolachas e "snacks", até mesmo mais do que gostaria, pois estou com muita fome! Dai posso me sentir mal e ter a sensação de que não consigo cuidar da minha alimentação. Estão vendo como isso é uma bola de neve de sensações e a importância de termos certos padrões alimentares?

  • Outra reflexão é em relação ao comer em família, à mesa.

Vejo muitas e muitas famílias que não se reúnem mais para comer, nem ao menos uma vez ao dia. E comer em companhia, no local adequado - que foi feito para isso, nos proporciona inúmeros benefícios: nos dá a sensação de pertencimento, de ser importante para aquelas pessoas e fazer parte daquele grupo - o que é uma necessidade fundamental do ser humano, um ser social; nos permite trocar experiências, observar os outros, aprender com outros; e inclusive nos encoraja a partilhar tanto alimentos quanto sentimentos. Comer em família é extremamente positivo e é um hábito que deveria ser resgatado.


Talvez você esteja pensando:


“Que horror! Comer chocolate só na Páscoa! Que exagero!”

“Nunca que eu ia me controlar e comer um pouco a cada dia! Quando tenho chocolate, preciso logo comer até o fim! Não consigo me segurar!”


Pois bem, quanto ao primeiro pensamento, espantado com a oferta de chocolate apenas uma vez ao ano, eu te pergunto: temos abacaxi disponível o ano inteiro? E manga? E melancia? Não! Se olharmos para a natureza, os alimentos também possuem ciclos. E está tudo bem! Tem épocas do ano que comemos bergamota, outras melancia, outras uva e por aí vai. Claro que com as grandes redes de varejo de alimentos atualmente até conseguimos comer melancia no inverno! Mas não é uma melancia que é produzida em nossa região e talvez nem naturalmente. Porque sempre ter em nossas casas chocolate se não temos vontade de comê-lo? Muitas vezes são essas imposições que nos colocamos, de sempre termos disponível chocolate, refrigerante, bolachas, salgadinhos entre outros, que nos atrapalham nos cuidados com a saúde. Não quer dizer que não possamos comer estes alimentos, mas também não quer dizer que precisemos ter eles sempre disponíveis ao alcance das nossas mãos. O quê, aliás, já foi provado cientificamente que quando temos algum alimento (de qualquer tipo que seja) ao alcance das mãos, é natural comermos sem pensar se realmente estamos precisando daquele alimento! Ou seja, manter uma distância segura é saudável!


  • Por fim, o pensamento de autocontrole.

Vejo que muitas pessoas têm esse tipo de fala “eu não consigo parar de comer até acabar”. Talvez até tenham pensado que se ganhassem um cesto de chocolates como eram os nossos, comeriam em dias! Eu eu venho te dizer que não. Mas isso depende da forma como você se relaciona com o alimento. Se o chocolate (agora vamos usar ele como exemplo) para você é considerado um alimento “proibido”, que lhe causa culpa, que você pensa que é “errado” ficar comendo; tem grandes chances sim de você acabar exagerando no seu consumo. Justamente devido à proibição que você se impõe. E você quer que aquela sensação de culpa, de estar fazendo errado termine logo, então, acaba comendo logo. Agora, se você procurar livrar-se desse tipo de categorização dos alimentos e buscar enxergar o chocolate como mais um alimento ao qual você tem acesso. E permitir-se comê-lo quando sente vontade, honrando essa vontade e tirando o máximo proveito durante o seu consumo - isso quer dizer comer com atenção, calma, saboreando, em um local prazeroso, em um momento especial do seu dia. Eu tenho certeza que você não vai sentir a necessidade de comer tanto chocolate de uma só vez!


E não é mágica não!


É autoconhecimento, autopercepção, respeito à si e às suas vontades, respeito aos sinais que seu corpo dá!


Ah! Então quer dizer que é só eu fazer isso? Mudar a forma como vejo o alimento? Como me relaciono com ele? Sim! É “só” isso. Lembrando que mudar a forma como pensamos e nos relacionamos não é como ligar o interruptor de luz. É um caminho, feito de vários pequenos micropassos e vários olhares para o nosso interior. E posso te garantir, é um caminho maravilhoso! Libertador!


Por isso, eu venho te propor: que tal aproveitarmos essa Páscoa sem precedentes para iniciarmos esse caminho de paz com a comida?


Garanto que será uma Páscoa inesquecível!

Fiquem bem!







Escrito por: Maína Hemann Strack Heinle

Nutricionista CRN² 9578 - @nutrimaina


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