Compulsão, Adição e Dependência...

Recentemente Joe Rogan, um comediante, comentarista e entrevistador, se manifestou durante uma entrevista dizendo como video-games podem ser atraentes ao ponto de se tornar um perigo e um "desperdício de tempo". Isso causou uma certa comoção entre fãs e profissionais do e-sports (esportes eletrônicos). Em seu argumento, jogos de computador ou video-game não seriam uma boa escolha de carreira pois apenas uma pequena parcela seria capaz de se sustentar como profissional neste mercado. Ao contrário do jiu-jitsu, esporte escolhido como comparação, no qual após alguns anos de treino seria possível ser um competidor relativamente sério e dar aulas.

Esta infeliz declaração foi feita dentro de um contexto onde os participantes discutiam sobre atividades que poderiam nortear uma vida profissional. O que não é exatamente o rumo que quero pegar pois, na minha opinião, existe um assunto nas entrelinhas da conversa que não está claro: o que é compulsão, adição e dependência?


É importante deixar claro que, até certo ponto, o objeto de uma compulsão ou dependência não é de grande importância, pois o cerne do prejuízo está no comportamento e não no seu alvo. Em outras palavras: não existe um bom vício. Um atleta que tenha comportamentos compulsivos em relação ao seu esporte pode ter diversos prejuízos, de lesões a uso de substâncias, mesmo tendo como alvo de seu comportamento algo positivo, o esporte.


Mas afinal de contas, o que é compulsão, adição e dependência?

As três definições são muito próximas e fáceis de causar confusão. Para começarmos do início vou utilizar seguinte exemplo:

Quando Joãozinho chega no super-mercado e vai pegar um carrinho o seguinte pensamento lhe vem a cabeça: "quantas pessoas já usaram este carrinho? e todas as bactérias que devem estar ali?". Este pensamento é tão forte que ele não consegue mandá-lo embora, e consequentemente, precisa limpar o carrinho com álcool gel.


Neste cenário o pensamento é o que chamamos de Obsessão, um pensamento que surge e permanece em nossa mente sem o nosso controle. Para resolver este problema e mandar o pensamento embora é necessário realizar o comportamento, a Compulsão, e limpar o carrinho. Neste caso obsessão e compulsão estão fortemente relacionadas mas não necessariamente é assim. Um impulso ou necessidade incontrolável e irracional de fazer algo é uma compulsão. Exemplos de compulsões sem obsessões são roer unhas, se coçar e arrancar fios de cabelo. Porém o mais importante é saber que a compulsão tem a função aliviar estresse. Mesmo que de uma forma momentânea e sem resolver o problema.


Compulsões existem porque dentro do nosso cérebro temos o que chamamos de Sistema de Recompensa. Ele é o responsável por nos dizer que algo é bom e que devemos fazer ou consumir aquilo novamente. Quando comemos um doce e nosso organismo recebe uma bomba de glicose: isso é bom, faz de novo. Quando abraçamos alguém que amamos: isso é bom, faz de novo. E da mesma forma, quando estamos nervosos e nos acalmamos roendo as unhas: isso é bom, faz de novo... Quando estamos falando de um funcionamento cerebral alterado do sistema de recompensa estamos falando de uma Adição.


Depois da adição, depois de nosso cérebro estar tão acostumado com um estímulo e com este funcionamento desregulado do sistema de recompensa acontece o que chamamos de Dependência. Agora o uso da substância ou a repetição do comportamento não tem a função de gerar prazer, mas sim de aliviar o mal estar que a a sua ausência causa.


Em resumo: A Compulsão alivia estresse momentaneamente sem resolver o problema. A Adição se refere ao funcionamento cerebral. E a Dependência supre o mal estar da falta.


Mas o que isso tem a ver com o comentário do Joe Rogan?

O que acontece é que estes são mecanismos de funcionamento do nosso cérebro, ou seja: todos temos eles em certo grau. Eles só vão ser chamados de transtorno quando causam sofrimento significativo na vida daquela pessoa. Para quem já tem filhos talvez fique mais claro, mas pra quem não tem filhos: você consegue se lembrar de um desenho, brinquedo ou brincadeira que gostava muito? Que era capaz de ficar brincando uma tarde inteira sem cansar e ainda repetir no dia seguinte? Qual a diferença desse funcionamento para o de uma compulsão?


Buscar formas momentâneas de aliviar estresse sem resolver o problema, ter a vontade de repetir coisas boas, assim como, sentir-se mal pois algo que nos dá prazer não está mais disponível, todos eles fazem parte das nossas vidas. A questão que não foi falada lá durante a entrevista é que não é o mecanismo nem o alvo o problema, mas sim o quanto usamos e abusamos das mesmas soluções nas nossas vidas. O quanto passamos a nossa vida lidando com nossos problemas da mesma forma: com soluções momentâneas e disfuncionais.


Deixando o mercado de jogos e artes marciais a parte, todos temos nossas pequenas obsessões e compulsões diárias. Já prestou atenção nisso? Esse texto está muito relacionado com o texto sobre crenças que publiquei temos atrás. Se quiser dar uma olhada é só clicar aqui.

1 comentário

©2018 by Léo Strack - Terapia a Domicílio. Proudly created with Wix.com