Crenças que nos controlam

O que você pensa quando falamos em crenças?

Consegue me dizer uma crença sua?

Já parou para refletir sobre o que acredita?


Este é um assunto, em geral, difícil de se abordar pois para se ter uma crença basta… acreditar. Uma pessoa pode acreditar piamente que existe um ser ancestral no fundo dos oceanos esperando para emergir no momento adequado e ainda assim jamais ter estudado biologia marinha por exemplo.



A existência de uma crença presume apenas um crente e uma proposição - “eu acredito que…” - o que implica na existência de um estado mental e uma intencionalidade, tópicos altamente discutidos quando falamos de filosofia da mente. Crenças fazem parte do nosso dia a dia, e não estou me referindo apenas a crenças religiosas, mas crenças mais quotidianas como “eu acredito que os supermercados estarão abertos amanhã” ou então “acredito que a academia esteja fechada a essa hora”.


Mas o que isso tem a ver com a psicologia?

E principalmente, o que isso tem a ver com controle?


Vamos por partes, as crenças se tornaram alvo de interesse dos psicólogos quando percebemos que delas pode se originar muito sofrimento. Uma pessoa que acredita não ter valor, que o mundo é injusto e cruel, e se vê incapaz de mudar ou lutar contra isso certamente acabará por experimentar sofrimento. Crenças são tão poderosas que diversas pesquisas utilizando placebo, quando um paciente recebe algo que ele pensa ser remédio mas não é, ficaram conhecidas devido seus resultados surpreendentes. Uma meta-análise de 2008 obteve resultados indicando que 79% dos pacientes deprimidos que recebiam placebo ficavam bem; o que é ainda mais impressionante quando comparado aos 93% dos pacientes que sentiam o mesmo bem estar tendo recebido antidepressivo de verdade.



Porém o problema é que, como dito anteriormente, para uma crença existir basta ter um crente e uma proposição. Por isso escutamos coisas como: COVID-19 foi criado pela China para obter vantagens no mercado econômico. Ou então a versão Chinesa que diz que o COVID-19 começou, na verdade, nos Estados Unidos!


Enquanto algumas crenças, como as duas anteriores, são mais fáceis de se desacreditar outras são bem mais elusivas e, muitas vezes, escapam da nossa reflexão. Sem nenhuma forma de busca por evidências, estas crenças, que nem sabemos de onde vieram, são capazes de eliciar pensamentos e emoções dentro de nós. Vítimas desse funcionamento tomamos decisões que podem acabar nos trazendo sofrimento e consequências irreversíveis. Quem será que tem controle sobre nós neste momento?


A solução para isso é simples porém difícil: reflexão. Será que o que eu penso é verdade? Será que existem partes da verdade da qual desconheço? No meu passado, em que momentos essa crença se mostrou verdadeira e em que momentos se mostrou falsa? A verdade é que muito provavelmente jamais teremos certeza absoluta se o que achamos da realidade é, de fato, a realidade absoluta. Jamais saberei se as pessoas são fundamentalmente boas ou ruins MAS posso estar atento para sinais e evidências que me lembram de momentos onde pessoas ao meu redor demonstraram ser bondosas ou não.


Este processo de meta-cognição, o pensar sobre o que se pensa, é natural nosso e algo que estamos propensos a realizar desde pequenos. Quando um bebê deixa de se surpreender com o fato de você ainda estar ali mesmo depois de ter sumido por trás das próprias mãos ele está iniciando seu processo de criação de crenças: eu acredito que objetos e pessoas continuam existindo mesmo fora do meu campo de visão. Estes serão pilares que sustentarão reflexões como: até que ponto pessoas são dignas de confiança? O que é justiça? Será que animais devem ter direitos?


É em momentos de crise que mais precisamos utilizar essa nossa capacidade. Que precisamos refletir e pensar se a visão que temos da realidade ainda é adequada, se não é momento de reformular nossas crenças e seguir na constante adaptação e readaptação à realidade. Pois é da inanição deste processo que provém muitos de nossos sofrimentos.


Existe um ditado zen que compara a mente a uma bola flutuando em um rio, ela deve estar sempre se movendo, batendo em galhos e pedras mas jamais se retendo pois é da interrupção desse movimento que provém o sofrimento.





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