Diagnóstico pra que(m)?

Provavelmente esta manchete não seja estranha para você: "Após entregador ser humilhado por ofensas racistas, empresa diz que vai excluir usuário da plataforma".


O caso aconteceu dia 31 de julho quando um motoboy foi desrespeitado por parte do cliente durante seu trabalho e teve uma grande repercussão nas redes sociais. Entretanto o assunto que quero tratar neste texto não a questão racial, nem a agressão verbal e falta de respeito por parte do cliente, mas sim o que foi divulgado como defesa e justificativa para tal comportamento.


O pai do homem que você pode ver no vídeo (clique aqui para ver o video) disse que o filho tem esquizofrenia e que esta seria a justificativa para seu comportamento. Esta não é a primeira vez, e certamente não será a última, em que um diagnóstico de um transtorno psiquiátrico é utilizado como recurso legal.


Segundo o Quinto Manual Estatístico Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-5) a esquizofrenia é um transtorno de personalidade que tem como principais características os sintomas de delírios e alucinações. De forma resumida, alucinações envolvem alterações nos sentidos, sendo mais comum a alucinação auditiva (escutar vozes) e os delírios são uma distorção das experiências pessoais, sendo mais comuns os de experiência persecutória (estar sendo perseguido ou vigiado).


Entretanto estes sintomas não são únicos da esquizofrenia e o diagnóstico de transtornos psiquiátricos parecidos tendem a ser difíceis, exigindo um tempo mínimo de acompanhamento. Por exemplo, segundo o DSM-5 os sintomas, neste caso delírios e alucinações, devem estar presentes por um período mínimo de um mês antes de se falar em qualquer diagnóstico de esquizofrenia.


Não sou responsável pelo caso e estou longe de ser um especialista no assunto, portanto não cabe a mim julgar se este dito diagnóstico está certo ou errado (mas posso dizer que está estranho). De qualquer forma temos duas alternativas: caso o diagnóstico não seja compatível, ele fez o que fez e deve pagar pelos seus atos. Mas e se o diagnóstico estiver correto?


Justificando nossas ações com questões de saúde mental.


O quão diferente é uma pessoa dizer:

"Faltei com respeito, falei o que queria, mas como tenho esquizofrenia estou livre de sofrer as consequências do meu ato."

De uma pessoa dizendo:

"Peguei um pé de cabra, mandei meu vizinho pro hospital, mas eu tenho problemas de controle da raiva e por isso não devo sofrer as consequências do meu ato."


Acho que você já viu onde quero chegar. Em ambos os exemplos temos um indivíduo que recebeu um diagnóstico psiquiátrico ou psicológico e que, baseado neste laudo, se exime total ou parcialmente da responsabilidade e das consequências de um comportamento relacionado ao transtorno. Da forma que é colocado aqui parece que existe uma entidade puxando os fios e manipulando cada uma dessas pessoas e que não havia nada que elas pudessem fazer para evitar o problema.


"Mas esquizofrenia é bem diferente de controle de humor". E é mesmo, cada transtorno tem suas particularidades e uns vão impor barreiras maiores na autonomia e controle de si do que outros. Entretanto todos nós já utilizamos da nossa ansiedade, estado de humor, fobia, e outras questões da nossa própria saúde mental como justificativa para algo. Quem nunca pediu desculpas por ter "largado as patas" em alguém completamente alheio ao problema que atire a primeira pedra. Isso sem falar das vezes que utilizamos dos próprios sintomas para obter certos benefícios e regalias, como quando estou nervoso para apresentar um trabalho e peço aos meus colegas para falar menos slides e tópicos mais simples.


Uma visão saudável do próprio problema.


Durante uma das cadeiras da faculdade tive que fazer um trabalho sobre transtornos de personalidade. Nós devíamos escolher uma pessoa ou personagem de filme para ser analisada no trabalho. Nesta situação eu escolhi o ex-boxeador Mike Tyson, meu palpite era de que ele tinha transtorno de personalidade antisocial. Achei que seria um caso fácil, visto que ele arrancou parte da orelha de outro boxeador com uma mordida e foi preso devido a outros crimes. Entretanto acabei descobrindo que Mike Tyson teve uma infância muito complicada e repleta de todas as formas de violência. A agressividade foi uma ferramenta extremamente necessária para sua sobrevivência durante todo período da infância e adolescência. É triste dizer, mas aquele era um contexto onde ser agressivo era algo bom!


De forma geral a maioria dos nossos sintomas são características que foram boas em algum momento das nossas vidas. Uma criança tímida e retraída talvez o seja para não chamar a atenção de um pai ou uma mãe mais agressivos, a ansiedade que sentimos hoje pode ter sido o que nos salvou de muitas enrascadas enquanto crescíamos. O problema está no fato dessa ansiedade, no contexto atual, não ser mais uma adaptação e sim uma limitação. Mike Tyson conseguiu usar parte de sua impulsividade e agressividade para fazer fama nos rings de boxe, porém essa foi uma estratégia apenas parcialmente eficaz, e o que não foi utilizado acabou se tornando a razão de sua decadência.


Nem sempre será possível transformar e reaproveitar características que trazemos da infância para nossa vida de adulto. Algumas vezes teremos que bater o pé e impedir que emoções do passado venham para o presente. Por isso, da próxima vez que você sentir aquele velho problema aparecendo de novo lembre-se: esta é a sua criança interior tentando resolver os problemas de um mundo adulto da única forma que conhece. Cabe a nós estender a mão e mostrar que existem outros caminhos possíveis com finais mais felizes.


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