Eleições e Melancias

Neste domingo somos convidados a fazer parte do processo eleitoral. Nos deslocamos até às urnas e lá manifestamos nossa opinião com relação a quem deve fazer parte desta grande máquina cheia de engrenagens que é o Estado. Mas quem devemos escolher? Como fazer essa escolha? A resposta vai depender de cada um, mas felizmente a psicologia pode contribuir neste processo.


Se você me permitir, irei te contar uma história que, apesar de se tratar de melancias, tem tudo a ver com o assunto. Eu sempre gostei muito de comer melancia. Uma vez, quando eu era pequeno, fui comprar melancia junto com meu avô. Chegando no mercado prontamente escolhi a que eu queria: a maior! Meu avô entretanto pegou uma melancia, deu umas batidinhas, largou na fruteira, pegou outra e repetiu o processo com umas três melancias diferentes antes de decidir qual iríamos levar para casa. Como era de se esperar de alguém com o triplo da experiência de vida de uma criança, e que cresceu trabalhando na roça, a melancia estava no ponto exato. Curioso eu perguntei para o meu avô como que ele sabia que a melancia estava boa sem abrir ela, ele me explicou que tudo depende do barulho que ela faz quando se dá uma batidinha nela. Daquele dia em diante passei a dar uma batidinha na melancia antes de comprar.


Em ambos os casos, eleições e melancias, estamos falando de um processo de seleção e de um método de realizar essa escolha. Quando criança meu método era simples e levava em conta apenas uma característica na hora de escolher uma melancia, o tamanho. Apesar de eu saber que o tamanho da melancia não tem muito a ver com ela estar madura ou não, eu não sabia como descobrir se ela estava no ponto sem abrir para ver. Meu vô por outro lado conseguia saber através dessas batidinhas. O pulo do gato está aqui: como que essas batidinhas indicam se a melancia está madura ou não?


Mais velho, mas não menos curioso, resolvi procurar na internet "como ver se uma melancia está madura sem abrir ela". Pra minha surpresa encontrei muitas informações sobre o umbigo e a barriga da melancia, o formato, e até sobre a cor. Mas encontrei poucas informações sobre o barulho. Acontece que é bem mais difícil identificar se uma melancia está madura pelo barulho do que por sinais visuais (cor, formato, umbigo, barriga, etc). Mesmo fazendo a melancia de pandeiro, jamais consegui reproduzir os resultados que meu avô tinha. As vezes eu pegava uma melancia boa e as vezes não, sem a metodologia adequada virou apenas um jogo de sorte.


Assim como uma criança escolhendo uma melancia podemos escolher um candidato apenas por uma característica, e pior ainda, por algo que não está sequer relacionado a competência para o cargo. Isso pode acontecer mesmo sem a nossa intenção. Você sabia que pessoas bonitas tendem a receber penas consideravelmente menores em julgamentos? Ou então que faz todo sentido psicológico colocar a Aline Riscado na propaganda de cerveja? Acontece que quando algo ou alguém tem uma característica que nos agrada, por exemplo a beleza física, temos a tendência de estender essa satisfação para outras características que não temos informações. Em outras palavras, nosso cérebro entende que se a garçonete da propaganda é "gostosa" a cerveja deve ser gostosa também. Agora deixa eu te perguntar, já pensou porque todo panfleto de campanha tem bem grande o número e a foto do candidato e não o número e as propostas de mudança que esse candidato tem a oferecer? Exato! Porque é muito mais fácil eu te passar uma boa impressão com uma foto bonita e bem editada do que com um texto detalhado das minhas propostas.


Agora vamos voltar as melancias por um momento, lembra que eu disse "Meu avô entretanto pegou uma melancia, deu umas batidinhas, largou na fruteira, pegou outra e repetiu o processo com umas três melancias diferentes antes de decidir qual iríamos levar para casa"? Não seria melhor se ele repetisse o processo em todas as melancias do supermercado para só então escolher a melhor melancia de todas? A verdade é que se ele fizesse isso provavelmente a melancia escolhida estaria entre as primeiras ou as últimas. Aqui nós enfrentamos um problema de memória, e não, não é porque meu avô era velho, mas sim por causa de uma coisa chamada Curva do Esquecimento.


Qualquer pessoa que tentou memorizar um telefone ou uma sequência de sete ou mais números sabe que nossa memória de trabalho é limitada. Ao contrário do que possa parecer, a tendência não é esquecermos dos primeiros números, mas sim dos números do meio. Quanto maior a sequência mais difícil é lembrarmos de todos os números, mas o que temos mais chance de acertar são os primeiros e os últimos. Então mesmo que meu avô desse um peteleco em todas as melancias do mercado quando chegasse no final ele provavelmente lembraria apenas das primeiras e das últimas, fazendo ser um desperdício de tempo as outras vinte e tantas "petelecadas" nas melancias entre elas. Será que é por isso que os números do partido sempre vem primeiro? Se é verdade eu não sei, mas que faz sentido faz. Agora que é de propósito a avalanche de panfletos, bandeiras e carreatas no sábado antes da eleição isso eu tenho certeza! Porquê mais uma vez a Curva do Esquecimento se faz importante: se você ainda está na dúvida de quem votar essa é a hora de espremer o maldito jingle entre seus ouvidos e ficar na sua memória. Azar daqueles que ficaram no meio dessa curva.


Agora o que realmente dificulta um processo de seleção é a vontade do candidato de ser selecionado. Se você já passou por uma entrevista de emprego e disse que não seria problema algum pegar um trem e dois ônibus todo dia para ir trabalhar você sabe bem do que estou falando. Quando escolhemos uma melancia para levar para casa elas não sobem em uma passarela e ficam mostrando seu lado mais verdinho ao mesmo tempo que escondem aquelas manchinhas do outro lado. Vamos dar o benefício da dúvida e dizer que nenhum candidato esconde suas falhas de forma planejada e mal intencionada (até parece). Eles querem ser selecionados e por causa disso irão expor apenas seu melhor lado, suas competências e capacidades, dizer coisas que queremos ouvir, e assumir compromissos que não foram planejados ou pensados a longo prazo. O que dificulta uma análise mais neutra e clara de cada caso.


No final o voto é uma ferramenta. Uma forma de manifestarmos nossa opinião em relação ao futuro do país. Certamente não é a única, mas por ser uma delas não custa nada fazer um bom uso, não é mesmo?



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