Minha lição para o século 21

Há algumas semanas atrás recebi uma indicação de livro de uma seguidora no Instagram, “21 Lições para o século 21” de Yuval Noah Harari. Eu já conhecia os outros dois livros mais famosos dele, “Sapiens” e “Homo Deus”, e quando fiquei sabendo que havia este novo livro tive certeza de que seria uma leitura bem interessante. Neste livro o autor nos leva a conhecer quais serão, no seu ponto de vista, os maiores desafios que a humanidade enfrentará no século 21. Seguindo a mesma ideia resolvi me propor a seguinte pergunta: qual desafio considero que iremos enfrentar nas próximas décadas?


O que observamos hoje


Para um indivíduo cinco ou dez anos pode ser muita coisa, imagina então um século. Resolvi atacar essa pergunta dividindo-a em duas questões menores: que problemas enfrentamos atualmente? Quais deles parecem estar apenas aumentando de magnitude?


Atualmente enfrentamos cisões políticas marcadas pelo extremismo, colhemos as consequências do pouco caso que temos feito das questões ambientais, enfrentamos uma pandemia que há muito tempo se anunciava e pode ser apenas a primeira de muitas. Mas como minha especialidade são assuntos internos relativos a mente humana achei que o ideal seria me concentrar nessa área. Mas quais são as principais fontes de sofrimento do homem atualmente, podemos pensar em tantas…


Mas espera um pouco! Se são tantas as fontes de angustia e sofrimento que enfrentamos, será que nossas condições de vida pioraram nos últimos anos? Não parece ser este o caso. As demandas talvez tenham aumentado, nos cobramos cada vez mais, precisamos ser bem sucedidos no trabalho, ter uma vida amorosa plena, manter contato com amigos e colegas, valorizar a família, é quase como se não pudéssemos mais errar…


Mas é claro!! Não podemos mais errar!


A falta de experiências negativas


As condições de vida nunca foram melhores na história da humanidade. Mesmo que alguns lugares do mundo ainda enfrentem dificuldades em estabelecer uma vida confortável para seus habitantes, de forma geral temos acesso a saneamento básico, vacinas, alimento, água potável e muito mais. A vida em sociedade caminha a passos largos rumo a uma convivência menos violenta, com mais empregos, acesso a formas de lazer e meios rápidos e eficazes de deslocamento e contato com amigos e familiares.


Entretanto, com todas essas praticidades, é esperado que cada indivíduo alcance um nível maior de sucesso e satisfação cada vez mais rápido. Precisamos terminar o colégio aos dezessete anos, entrar em uma faculdade, nos formar no tempo mínimo para logo entrarmos no mercado de trabalho e seguir produzindo até cada vez mais longe em nossas vidas. Não podemos trocar de curso, rodar um ano na escola, ficar em dúvida de qual carreira escolher ou a que nos dedicar. Mesmo o trabalho voluntário, que deveria ser doado, tornou-se um investimento reconhecido por empresas como algo que promove o caráter e nos faz crescer.


Nos tornamos extremamente sensíveis a palavras que muitas vezes não tem consequências práticas em nossas vidas. Não podemos fazer piada ou falar sobre determinados assuntos. Ficamos nervosos e regulamos nosso comportamento não pelo que julgamos ser o certo mas sim pela aprovação demonstrada por pessoas que sequer conhecemos na internet. Temos dificuldade em tolerar e compreender que pessoas próximas podem ter visões diferentes de mundo e que está tudo bem. Somos levados a pensar que erros são o fim do mundo quando, na verdade, eles nos tornam mais resistentes e a dor emocional “cria calos” que nos ajudam a enfrentar dificuldades futuras.


Faça um exercício mental comigo. Eu quero que você pense no ultimo evento ou situação que te deixou ansioso, triste ou com raiva. Concentre-se nessa emoção. Agora respire fundo, inspirando pelo nariz, expirando pela boca. Solte o ar devagar até esvaziar completamente o pulmão e repita o processo três ou quatro vezes. Agora que está mais calmo, deixe aquela emoção no canto da sua mente e faça a seguinte pergunta a si mesmo:


Qual poderia ter sido o pior desfecho imaginável para o que me deixou ansioso, triste ou brabo?

A chance maior é que, mesmo sendo algo extremamente desagradável, sua vida não iria terminar e a dor não seria permanente. Aproveitando o cenário de pandemia como exemplo, digamos que você pensou em um ente querido que está com COVID e apresenta um quadro grave e com risco de vida. Sim, é horrível perder uma pessoa querida e ficar triste neste momento é plenamente saudável, porém ao mesmo tempo devemos nos lembrar de todos os momentos bons que aquela pessoa nos proporcionou e sermos gratos pela oportunidade de ter estado ao seu lado durante o tempo que nos foi permitido. Todas as contribuições que ela fez para nossa vida são memórias e emoções que a mantem viva dentro de nós e em todas as atitudes que tomamos. Esta é uma situação ruim e desagradável, mas não é o fim do mundo. Basta termos um olhar saudável para tirarmos algo de bom daqui.


O que pode vir no futuro


Se ao longo de nossa vida não somos expostos a emoções negativas não só teremos dificuldade de desenvolver formas de lutar contra elas, como as próprias emoções positivas se tornarão menos satisfatórias. Quando eu era pequeno minha mãe deixava eu comer bala apenas depois do almoço, como sobremesa. Obviamente que, por mim, eu comeria um pacote inteiro de balas de menta em uma tarde. Ver as balas no pote sem poder comer não era uma sensação agradável. Porém, hoje, conversando com minha irmã nutricionista, me dou conta que se eu devorasse um pacote inteiro de bala naquela época talvez até fosse bom no inicio, mas depois de um ponto seria simplesmente “só mais uma bala”.


O paralelo é que temos tanto acesso a fontes descontroladas de prazer que acabamos por nos tornar resistentes e anestesiados a elas enquanto ficamos ultrassensíveis a frustrações que experimentamos muito raramente. Não é a toa que discursos como “na época da TV aberta a gente ia correndo beber água na propaganda porque não tinha como pausar...”, “porque quando a internet era discada eu esperava chegar meia noite pra pagar um pulso só…”. O problema está na tendência de termos cada vez mais acesso a praticidades e privilégios no nosso dia a dia. Seja no acesso a informação, deslocamento para o trabalho, entrega de comida, o que for. Ao contrário do que se pensa, não somos movidos pelo prazer, mas somos sim especialistas em fugir da dor, e isso não tende a mudar tão cedo.


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