O Caso Carrefour

No texto de hoje convido você, leitor, a refletir sobre o infeliz evento que ocorreu nesta quinta feira à noite no supermercado Carrefour. Mas primeiro gostaria de relembrar o que conversamos semanas atrás no texto “O Luxo da Palavra”. No texto conversamos sobre como palavras tiram seu valor muito mais de nós ouvintes do que de quem as fala. Usando o mesmo exemplo do cabelo: se alguém fala mal do nosso cabelo podemos escolher nos incomodar ou não, depende da relação que temos com aquela pessoa e do valor que damos a opinião dela. Conversamos também sobre como palavras podem motivar ações mas que sem uma ação a palavra não tem tanto poder assim. Então para recapitular: palavras tiram o seu poder do valor que atribuímos a elas e das ações que inspiram.


O caso Carrefour


O que tem sido divulgado nas notícias, e o que usaremos para nossa reflexão, são as seguintes informações: houve uma discussão entre a vítima e a caixa do estabelecimento, o que levou os seguranças a escoltarem João Alberto para fora do local. No estacionamento se iniciou uma briga, segundo a notícia João deu o primeiro soco, no decorrer da confusão a vítima foi alvo de diversas agressões que levaram ao óbito. Talvez não tenham sido exatamente estes os acontecimentos, porém para nossa discussão vamos utilizar esta versão dos fatos.


Provavelmente a primeira pergunta que você se fez ao ouvir sobre o acontecido foi “de quem é a culpa?”. Quando nos deparamos com uma cadeia de eventos é natural procurarmos o que causou o seu início. Buscamos sempre uma causa e um efeito, uma ação e sua consequência. E se encontrarmos a causa podemos dizer de quem é a culpa, certo? Sendo assim, podemos seguir a ordem cronológica dos eventos buscando o primeiro deles. Desta forma a culpa seria de João, pois ele começou a sequência de eventos ao discutir com a caixa do mercado. Fazendo do final trágico uma consequência de seu próprio ato.


Entretanto esta não é a nossa única forma que temos de encontrar um culpado. Podemos utilizar um método diferente: encontrar a pessoa que teve a oportunidade de evitar o desfecho da cadeia e que falhou em fazê-lo. Através desta lógica os culpados seriam os seguranças pois, ao invés de optar por não agredir a vítima, dando fim a cadeia de eventos antes do seu desfecho trágico, agiram de forma irresponsável permitindo que a violência se perpetuasse até a morte de João Alberto.


Dependendo da forma que utilizamos para analisar a situação conseguimos “colocar a culpa” em quem quisermos. No João, que deu início a cadeia de eventos ou nos seguranças que agiram de forma irresponsável. Se quisermos extrapolar a situação podemos culpar também a empresa que não ofereceu treinamento adequado a seus funcionários ou a sociedade racista e preconceituosa que permitiu tal descaso com a vida de um homem negro de quarenta anos. Encontrar um culpado que atenda as nossas necessidades e vontades pode ser bem fácil, levando a uma interpretação equivocada dos fatos. Certamente a culpa depende muito mais da perspectiva de quem julga que do precursor dos eventos ou de quem falhou em evitar o seu desfecho.


O poder das palavras


Apesar de não encontrarmos um culpado definitivo, temos muito a aprender com a situação. Para isso gostaria de introduzir dois conceitos: Consequência e resposta.


Vamos dizer que uma consequência é o que acontece diretamente após o ato, sem um intermediário. Quando damos um soco no rosto de alguém, o olho roxo ou o lábio inchado são consequências do soco pois depois de realizada a agressão não há como evitar o dano ao rosto da outra pessoa.


Resposta por sua vez é quando uma ação é realizada tendo como motivação um ato ou evento anterior, geralmente realizado por outra pessoa. Ou seja, quando alguém nos dá um soco podemos escolher responder de diversas formas, sendo dar um soco de volta uma alternativas. É importante ressaltar que aqui temos uma escolha, e portanto, temos também uma responsabilidade. Escolhemos como responder a um ato e por isso somos responsáveis pelas consequências de nossa resposta. Por mais que possamos justificar nossa decisão pela ação do outro somos os agentes daquele evento, e por isso, responsáveis por suas consequências.


Se olharmos para a situação da agressão sob esta lógica identificamos o seguinte: um ato, ofender a caixa do mercado, e uma resposta, agredir quem deu início a perturbação. Mas e as consequências? Quem sofreu as consequências da primeira ação?


Para sabermos as consequências dos xingamentos precisaríamos falar com a caixa do mercado, pois foi a ela que se destinaram as palavras de João Alberto. Assim como a funcionária pode ter ficado triste e ofendida pelo que foi dito, também existe a possibilidade de ela ter deixado “entrar por um ouvido e sair pelo outro”. Tudo depende de como a funcionária interpretou a situação e do valor que atribuiu as palavras de mais um cliente alterado que lhe faltou com respeito. Por sua vez as consequências da ação dos seguranças são fáceis de se identificar, tiveram sua vítima clara e dano permanente. João não teve a opção de não se importar ou deixar os socos e o enforcamento "entrar por um ouvido e sair pelo outro”. Enquanto as consequências de palavras dependem de quem as escuta, ações tem consequências inevitáveis e fora do controle dos envolvidos. Não depende de quem levou o soco decidir se o olho ficará inchado assim como não depende de quem desferiu o golpe decidir o grau do dano causado no alvo.


Mas afinal, de quem é a culpa?


Utilizando os conceitos citados de consequência e resposta quem seria culpado? Se a consequência de palavras depende mais de quem as escuta e a consequência de ações depende de quem as executa podemos dizer que os principais responsáveis pela cadeia de evento foram os seguranças do mercado. Primeiro porque deixaram que as palavras de João lhes causasse uma reação emocional de raiva, nublando uma tomada de decisão mais racional, e segundo porque decidiram responder violentamente, perpetrando a agressão contra João.


“Mas ele deu um soco nos seguranças antes! Ele é o culpado!”, mesmo tendo dado o primeiro soco, ainda assim os seguranças tiveram a oportunidade de escolher como responder a agressão. Assim como poderiam ter devolvido a agressão de forma equivalente, "olho por olho e dente por dente", poderiam não ter revidado ou ter contido João sem causar lesões sérias. Ao invés disso escolheram não apenas revidar mas ir um passo além, e acabaram por tirar a vida da vítima.


Mas porque afirmei que os seguranças seriam os principais, e não únicos, responsáveis pela morte de João? Porquê não oferecer treinamento adequado a seus funcionários foi uma escolha feita pela empresa de segurança, porque transformar uma discussão em uma briga ao desferir o primeiro soco foi uma escolha feita pelo próprio João, porque não agir ao presenciar tal situação foi uma escolha dos espectadores. Podemos não ser diretamente responsáveis pela resposta que outras pessoas tem aos nossos atos, mas não podemos ignorar nosso lugar na sequência de eventos. Em uma situação como esta encontrar culpados pode ser pouquíssimo proveitoso, visto que de certa forma todos somos parcialmente culpados pelo mundo em que vivemos. Mais importante que apontar o dedo é refletir e buscar aprender com as consequências e escolhas de uma tragédia como esta.


Cadeias de eventos como esta ocorrem a todo momento ao longo do nosso dia. Quando dizemos "oi" ao colega de trabalho, quando escutamos um amigo com problemas, quando xingamos alguém no transito. Felizmente a grande maioria não apresenta desfechos trágicos como o de João, mas estamos sempre respondendo aos atos dos outros e experimentando as consequências de nossas próprias escolhas. Ao ignorarmos essa oportunidade de reflexão perdemos o que temos de mais valioso: nosso poder de decisão, nossas escolhas. Por isso da próxima vez que você se encontrar em uma situação onde muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo de forma rápida e fora de controle, pense: quais são as palavras e as ações envolvidas? Quais suas consequências e quais são as suas opções de resposta?


E lembre-se: as consequências de palavras dependem de quem as escuta, enquanto que a consequência das ações depende de quem as executa.




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