O certo e o errado em tempos de quarentena

Seja na TV, na internet, ou mesmo nos grupos de whatsapp, a quarentena é o assunto do momento. Não só isso, a discussão sobre a flexibilização tem dado muito o que falar. Mas como decidir o que é certo ou errado nesse momento?


Ultimamente tenho aproveitado o tempo que tenho em mãos para colocar algumas coisas em dia, entre elas meus exercícios físicos e minhas leituras. Sendo assim, tenho passado quase todas as tardes ouvindo audiobooks no celular enquanto ando de bicicleta pelo bairro. Tenho certeza que algumas pessoas iriam dizer:


"Andando de bicicleta na quarentena?! NÃO PODE!!"



Quando se trata do que pode ou não pode, do que se deve ou não se deve fazer, do que é certo e o que é errado podemos ter certeza que, independente da sua opinião, alguém vai discordar. E isso não é algo ruim! Muito pelo contrário, é nessa diversidade de opiniões que nós somos capazes de contestar, aprender e crescer. Mas porque alguns debates são mais acirrados que outros? Porque as vezes temos a impressão de estarmos falando com uma parede?


Vamos aproveitar o exemplo da bicicleta e continuar falando sobre trânsito. Se eu te perguntar se é correto andar com o carro no lado direito de uma rua de duas mãos provavelmente você me responderia que sim. Afinal de contas é assim que dirigimos aqui no Brasil. Porém se fizermos a mesma pergunta para um inglês provavelmente ele nos diria que não, que o correto é dirigir o carro do lado esquerdo de uma rua duas mãos.


"Ah! Mas esta é uma convenção social. Não importa que lado deve se dirigir o carro, o importante é que seja um consenso entre todos daquele local."


Bom, mas se o importante é o consenso, então está tudo bem que na China se coma carne de cachorro. Afinal de contas, é um consenso entre as pessoas daquele, não é mesmo?

Provavelmente você esteja pensando algo como:


"É... Faz parte da cultura deles... Mas que é estranho é. Eu não comeria."


Mesmo conseguindo entender racionalmente que é algo cultural ainda nos parece mais errado, e mais desconfortável, do que dirigir no lado esquerdo da rua. O que a psicologia tem percebido é que muitas das decisões que julgamos totalmente racionais não são exatamente assim. E isso se torna mais evidente quando falamos de dilemas morais.


Dilemas morais são aqueles que tratam de algo que consideramos fundamentalmente certo ou errado. Essa sensação pode ser tão profunda e intensa que podemos nos deparar com situações onde sabemos a resposta mas temos dificuldade para explicá-la. E é exatamente nestas situações que podemos entender melhor como decidimos se algo é certo ou errado.


Porque o exemplo do cachorro é tão diferente do exemplo do carro? No livro "The righteous mind: why good people are divided by politics and religion" o autor fez um experimento onde um entrevistador e um entrevistado sentavam em uma mesa onde havia um copo de suco e um recipiente com uma barata. O entrevistador então falava que a barata havia sido criada em laboratório e havia sido esterilizada, ou seja, estava completamente limpa e sem qualquer tipo de bactéria ou possível patógeno. Após explicar isso o entrevistador mergulhava a barata momentaneamente no suco e pedia ao entrevistado que bebesse.


Bom, se você ficou com nojo e imaginou que a maioria da pessoas entrevistadas se recusaram a beber você acertou. Mas porque? A barata estava completamente limpa, não havia risco de ter qualquer tipo de sujeira ou bactéria, porque não beber o suco?


Segundo o autor sentimentos como o nojo e o de machucar algo ou alguém tem um papel extremamente importante quando nos deparamos com um dilema moral. No caso da barata ficamos paralisados pois sabemos qual a resposta mas temos dificuldade de encontrar uma razão que justifique aquela resposta. No caso do cachorro existe um mal sendo feito a um animal que, na nossa cultura, ocupa um papel muito próximo afetivamente. Enquanto que no caso do carro não é causado mal algum e tanto faz dirigir na direita ou esquerda, o importante é o consenso. Para Jonathan Haidt essa é uma das provas que, para mais situações do que gostaríamos de admitir, a razão pela qual decidimos algo vem depois de a decisão já ter sido tomada.


A teoria de Haidt é de que ao nos depararmos com um dilema moral primeiro temos uma intuição do certo e errado, depois temos o julgamento (a tomada de decisão) e só então atingimos o momento de racionalizar, de criar justificativas para nossa decisão. A maioria das pessoas no experimento não se convenceram com a explicação do entrevistador, e por mais que se argumentasse, não beberam o suco. Isso porque a decisão foi tomada antes da etapa de racionalização e uma argumentação racional não era capaz de "balançar" a decisão feita intuitivamente na etapa anterior.


Mas isso quer dizer que jamais mudamos de opinião? Não, certamente somos capazes de mudar de opinião, entretanto esse processo de reflexão é muito mais raro, difícil de ser feito individualmente, e, convenhamos, praticamente impossível quando alguém fica "jogando na nossa cara" que estamos errados. Usando as a metáfora do próprio Jonathan:


"A razão pouco mais é que um guia montado em um elefante sem rédeas. Na maioria dos casos o melhor que o guia pode fazer é nos dizer o porque de o elefante estar indo para um lado e não para o outro, mas pouco pode ser feito para levar o elefante para o lado que se quer."




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