O poder de fazer as perguntas certas.

Perguntar faz parte da vida de todos nós. Pode ser para um grupo ou para uma única pessoa; pode ser na privacidade da nossa própria mente ou em na frente de espectadores; pode até mesmo ser uma pergunta que já sabemos a resposta! A verdade é que perguntas fazem parte da nossa vida. Mas seriam elas boas ou ruins?


Não vou fazer o papel da sua professora de ensino fundamental e defender que "toda pergunta é bem vinda". Se você já chegou em casa morto de cansado, querendo apenas tomar um banho e desligar o cérebro por um tempinho, você sabe que nem toda pergunta é bem vinda. Perguntas são ferramentas. Não são boas nem ruins, são apenas meios para um fim. E justamente por isso podem ser bem ou mal empregadas conforme fatores como momento, alvo, formulação, entre outros.


O problema é que ao longo da vida ficamos preguiçosos. Nos acostumamos a perguntar sempre as mesmas coisas da mesma forma. Quer um exemplo? Quando você encontra um vizinho no corredor, aposto que você diz algo como:


"Oi, tudo bem?"


Uma pergunta tão rotineira, tão sem significado que muitas vezes não é nem respondia. Sendo apenas acompanhada pelo "Oi, tudo bem?" do vizinho. Mas isso nos satisfaz, fizemos nosso papel de bons vizinhos e cumprimentamos. Talvez você esteja pensando neste momento que isso é rotina, uma questão de educação e que eu estou sendo exagerado. E te digo uma coisa: tem razão. É uma questão de educação, estou sendo exagerado para demonstrar um ponto: nos acostumamos a ser preguiçosos em nossas perguntas. Essa é uma delas, quantas outras será que existem no nosso cardápio? Porque fazemos isso?


Imagine agora que você se propõe a fazer diferente, você vai se dedicar e buscar uma resposta para todos os seus "Oi, tudo bem?" e não vai aceitar um "tudo bem" de resposta! Que pessoa chata você se tornaria...


Como seria exaustivo se envolver dessa forma com vizinhos, colegas, porteiros, motoristas de Uber, cobradores de ônibus e muito mais. Este mecanismo de acomodação nos protege desse gasto excessivo de energia. O problema é quando generalizamos esse funcionamento, quando aplicamos ele na nossa vida pessoal e íntima, quando fazemos perguntas preguiçosas para nós mesmos.

Porque você está onde está hoje? O que você quer? Como pretende alcançar isso? Será que essa é a única forma? O que essa busca diz sobre ti?


Estamos tão desacostumados a responder e fazer estas perguntas NÃO preguiçosas que é comum usarmos a resposta de outras perguntas sem nem nos darmos conta. Por exemplo, quando algum amigo nosso assiste um filme que estamos pensando em assistir:


"E aí, é bom o filme?"

"Eu gostei, tem umas explosões e os efeitos são muito bons."


Mesmo que de forma bem intencionada, nosso amigo não está respondendo a pergunta que fizemos. Ao invés de pensar refletir sobre as qualidades narrativas e cinematográficas do filme o que está sendo respondido é se ele gostou do filme ou não. O que acontece é que, para nos poupar elaborar uma resposta demandante e trabalhosa, usamos a resposta de uma pergunta mais simples que, de forma parcial, resolve o problema.


Mas no mesmo diálogo temos outro problema: a pergunta. Qualquer pessoa que, por motivos individuais, desgoste de um filme aclamado pelo público sabe que a qualidade do filme não é garantia de que será do seu gosto. Logo, a pergunta real seria algo como: "o que tu achou do filme? Será que se eu assistisse eu iria gostar?"


Mas que tipo de filme eu gosto? Quais características são mais importantes para mim? O roteiro? A trilha sonora? Agora saímos do mundo externo e voltamos nossas perguntas para o mundo interno. E é nesse movimento reflexivo que perguntas preguiçosas se tornam mais perigosas.


Sócrates ficou famoso pela utilização de questionamentos em sua prática de ensino. Para ele perguntas serviam para dois motivos: discriminar o que um aluno sabe ou compreende do que ele não sabe ou não compreende, assim como ensinar os alunos a utilizar estes questionamentos no seu dia a dia. Para isso Sócrates usava seis tipos de perguntas:


  • Aquelas destinadas a investigar a origem de algo: porque você diz isso? Pode explicar melhor?

  • Aquelas destinadas a explorar os pressupostos presentes: é sempre assim? Porque isso se aplica neste caso?

  • Aquelas destinadas a investigar argumentos: porque motivo tu diz isso? Existe algum motivo para duvidar dessa evidência?

  • Aquelas destinadas a encontrar novas alternativas: qual seria o contra-argumento neste caso? Alguém diz ou faz diferente?

  • Aquelas destinadas a investigar condições: se isso é verdade qual o efeito naquilo? Se for assim, o que acontece depois?

  • Aquelas destinadas a questionar as perguntas: porque você se pergunta isso? Porque essa questão é importante?

Estas não são perguntas fáceis e todos nós já nos deparamos com algumas delas ao longo da nossa vida. Mas ao mesmo tempo que exigem de nossa capacidade reflexiva elas nos oferecem muito em suas respostas. Não digo para você começar a ser o vizinho chato que fica metendo o nariz na vida dos outros, mas quem sabe uma vez por semana você possa ser o namorado atencioso? Ou então o amigo que aprofunda o diálogo? Ou melhor ainda, a pessoa que se olha no espelho e se pergunta o que precisa ser perguntado...





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