O problema da pessoa certa

Ao longo da vida nos relacionamos com muitas pessoas, mas poucas relações tem tanto poder sobre nós quando a relação amorosa. Quando pequenos o primeiro modelo que conhecemos é da relação entre nossos pais, a dualidade que deu origem ao pequeno eu. Na escola ouvimos histórias de príncipes e princesas, de mocinhos e mocinhas, e mesmo quando pensamos em um casal homossexual ainda pensamos em um casal, duas pessoas. Por mais que o número de pessoas solteiras e sem o objetivo de estabelecer um relacionamento de longo prazo tenha aumentado, ainda assim, a esmagadora maioria busca sua completude no outro. Mas… será que vamos encontrar a pessoa para dividir a nossa vida?


Essa é uma pergunta que pode nos gerar muita ansiedade e mal estar. Por mais que o "bruxo do amor" nos diga que as cartas revelaram a verdade a ele, não existe a garantia de uma resposta, seja positiva ou negativa. Isso sem falar que mesmo depois de já estabelecido um relacionamento não é incomum que surjam sentimentos como o medo do abandono ou a ansiedade de separação. Justamente por ser algo tão importante devemos ter cuidado redobrado na "forma" que nossos pensamentos tomam quando o assunto vem a mente. Muitos adolescentes e adultos costumam se perguntar se um dia irão alcançar o sucesso amoroso, se um dia serão plenos neste aspecto da vida, se encontrarão a outra metade da sua laranja.



Os dois lados da moeda


Você acredita em alma gêmea? Você acredita que existe uma pessoa no mundo que seja ideal para você? Que tenha sido feita com o único e exclusivo propósito ser a resposta da sua busca? Se você disse que sim então o único desafio a ser superado na vida amorosa é encontrar essa pessoa. Pois se toda pessoa tem uma alma gêmea a sua deve estar por aí em algum lugar. Mas será que ela está no seu bairro? Na sua cidade? Ou será que ela está em outro país do outro lado do mundo? Infelizmente poucas são as pessoas que tem condições de viajar o mundo em busca de sua alma gêmea, então se assim como eu você não é uma dessas pessoas, é melhor torcer para que a sua metade da laranja não esteja no Japão comendo sushi com alguém. Caso este seja o caso nós quatro ficaremos segurando vela. Eu e você aqui, e nossas almas gêmeas do outro lado do planeta.


O lado ruim de se acreditar em alma gêmea é que todos os outros relacionamentos que você possa vir a ter estarão destinados ao fracasso, afinal de contas aquela não é a sua alma gêmea. Lembra daquele caso que você teve na praia e não teve oportunidade de dar continuidade? Tudo bem, não iria dar certo mesmo. Lembra daquele ex do colégio que começou a te seguir no Instagram? Nem adianta seguir de volta porque se ele fosse sua alma gêmea a coisa não teria terminado do jeito que terminou. O modelo da alma gêmea funcionava muito bem em uma época onde, ao longo da vida, as pessoas estabeleciam apenas uma meia dúzia de relacionamentos amorosos. Eram um ou dois namoradinhos e no terceiro: casamento. Compromisso que geralmente era levado para a vida toda, mesmo que a trancos e barrancos.


Assim como as regras de etiqueta o construto da alma gêmea também foi criado pelo ser humano e, consequentemente, reflete a cultura e os hábitos da época. Freud ao escrever sua teoria do desenvolvimento psíquico falava muito no pai e na mãe e no papel que cada sexo tinha no desenvolvimento da criança. Hoje não falamos em pai e mãe, mas sim em figura paterna e figura materna. A estrutura da família mudou ao longo dos anos e determinadas funções, como a de protetor provedor, se descolaram do sexo biológico. Hoje encontramos mães solteiras que fazem o papel não só da figura materna como da figura paterna também. E se bobear da figura da vovó, do vovô, do cachorro e do papagaio! Encontramos pais que ficam em casa com seus filhos, levam na escolinha, brincam de casinha e dão um beijo nos machucados enquanto as mães saem em busca do sustento da família. Mudanças parecidas aconteceram com a solidez das relações românticas. A cinquenta anos atrás era comum para uma mulher se casar com menos de vinte anos. Hoje esta mesma decisão provavelmente seria encarada como precipitada e descuidada na maioria dos casos. Ter um filho sem estar casada era muito mal visto. Hoje em dia temos uma quantidade enorme de padrastos e madrastas que fazem parte de um núcleo familiar saudável. Quando o assunto é a quantidade de parceiros que se tem ao longo da vida não há motivos para pensar que tenha sido diferente. Com a popularização de tecnologias como celular e internet temos a possibilidade de conversar e interagir com pessoas mais distantes e com mais pessoas simultaneamente. Se hoje você decidir viajar para a Itália quando a pandemia terminar, é possível baixar um aplicativo de relacionamentos e já ir realizando uma "pesquisa de mercado" para ver quem está disponível lá do outro lado do Atlântico sem sequer ter comprado a passagem de avião.



Uma proposta de amor mais fluído


Mas se nossa vida amorosa mudou tanto, como poderíamos adaptar este ideal de alma gêmea para a realidade atual? Vamos começar atacando a concepção de que existe apenas uma pessoa para nós e que mais ninguém seria capaz de nos oferecer o que essa pessoa pode. Ao longo da vida a tendência é que iremos nos envolver com pessoas de estilos diferentes. Quem sabe iremos encontrar um namorado mais apegado e romântico, ou então uma namorada mais independente e livre. Uma pessoa mais dominadora aqui, uma mais submissa ali. É através dessas experiências que iremos adquirir as nossas preferências. Cada pessoa com quem nos envolvemos oferece um mundo inteiro de possibilidades e, apesar de diferentes, muitas delas são igualmente boas e te fariam igualmente feliz. Com certeza a vida com um namorado motoqueiro é diferente da vida com um namorado contador, porém cada uma delas tem seus benefícios e desafios particulares. As variáveis são tantas que é difícil dar uma "nota final" para cada uma delas e dizer que esta é melhor que aquela. Dessa forma podemos estabelecer o seguinte:

não existe uma pessoa certa, diferentes pessoas oferecem diferentes formas de ser feliz dentro de um relacionamento.

Então quer dizer que se eu reencontrar aquela antiga namorada da adolescência e voltarmos a nos relacionar a coisa será como era antes? Não, com certeza não. Se nós mudamos ao longo da vida, a vida que oferecemos ao outro muda também. Relações durante a adolescência tendem a ser muito mais intensas e voláteis do que relações durante a adultez. Isso significa que existe a possibilidade de a pessoa que oferecia o que você buscava na adolescência não vá oferecer o que você busca depois de adulto. Então...

Não se trata apenas de encontrar a pessoa certa, mas também de ambos estarem no momento certo para que a "coisa role".

Mas então como podem existir relacionamentos de longo prazo se o que buscamos e o que oferecemos muda com o tempo? O segredo para uma relação duradoura não está na permanência e rigidez, mas sim na adaptabilidade e renovação da relação. Porque é comum que casais se desfaçam pouco tempo depois de começarem a morar juntos? Ou talvez você conheça alguém que terminou um relacionamento quando o parceiro manifestou o desejo de "oficializar a relação"? Muitas vezes isso acontece porque, enquanto um procura estabelecer uma identidade de casal mais forte, o outro ainda tem por objetivo manter a sua individualidade e seu espaço pessoal. Não é como se houvesse uma regra de que depois do aniversário de 25 anos homens e mulheres SEMPRE decidem morar com suas respectivas caras metade. Existe todo um histórico de vida por trás do que buscamos em uma relação. Assim chegamos a ultima parte de nossa nova proposta:

Um relacionamento saudável e duradouro é calcado muito mais na renovação que na solidez da relação.

Ainda existem muitos mistérios no porque escolhemos nos relacionar com uma pessoa e não com a outra. No porque sentimos algo tão forte em alguns momentos e porque somos intocáveis em outros. Porém esta é a maior beleza das relações humanas, nunca sabemos tudo, sempre há espaços para surpresas e novidades. Cabe a nós saber transitar pela enorme trama de caminhos para que possamos escolher, não apenas nosso destino, como o trajeto dessa viagem.


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