O quanto vale a sua vida?


Vamos imaginar uma situação, um jogo, onde, nesta primeira etapa, você deve atribuir secretamente um valor em dinheiro para a sua vida. Consegue pensar em um número? Eu te espero, pode pensar com calma.


Pensou?


Na segunda etapa do jogo qualquer pessoa do mundo pode escolher fazer uma doação para você. Se o valor que você deu a sua vida for atingido, meus parabéns, você pode ir para casa. Caso contrário você será executado e morto. O que você acha que aconteceria? Você sairia vivo ou teríamos um final trágico?


O valor de uma vida não é uma questão nova para a psicologia e menos ainda para a humanidade. O dilema do bondinho ficou famoso por explorar o assunto colocando as pessoas em uma situação hipotética onde poderiam deixar que um bondinho desgovernado atingisse cinco trabalhadores, ou então, poderiam acionar uma alavanca que desvia o bondinho para um trilho onde há apenas um trabalhador. Kohlberg utiliza este mesmo questionamento, o valor de uma vida, para exemplificar sua teoria dos estágios do desenvolvimento moral através do dilema onde Heinz deve escolher entre roubar um remédio ou deixar sua mãe morrer doente. Mas se tantos já estudaram o tema, qual a resposta final?


A verdade é que não existe, e provavelmente nunca irá existir, uma resposta final pois esta é uma pergunta escorregadia. Imagine que, ao ficar sabendo da segunda etapa do jogo, você tem a possibilidade de reavaliar o valor de sua vida. Você mudaria o valor inicial? Para mais ou para menos? Me arrisco a afirmar, com certo grau de confiança, que você não apenas mudaria o valor como o segundo valor seria significativamente menor que o primeiro. Dessa forma, suas chances de sobrevivência aumentariam drasticamente.


“Mas esse é o valor que eu ia dizer que vale, não o valor de verdade. É só um truque para sair vivo.”


Tudo bem, entretanto o valor ao qual nos referimos no exemplo acima é um valor objetivo e de comum acordo, não um valor subjetivo que existe dentro de nós mesmos. Por isso a atribuição de um valor em dinheiro, uma convenção social que visa quantificar diferentes produtos e serviços existentes no mercado. A atribuição de um valor concreto para um vida é algo extremamente difícil, entretanto atribuir valores a vidas é algo que fazemos com certa frequência, mesmo que sem perceber.


No momento em que decidimos pegar um táxi a fim de evitar andar algumas quadras em uma rua perigosa estamos, em certo grau, atribuindo um valor a nossa vida: ela vale mais que o valor da corrida. Quando optamos jogar fora um alimento vencido estamos assumindo um prejuízo a fim de não colocar em risco nossa saúde: ela vale mais que alimento jogado fora. Na verdade, fazemos isso não apenas para vidas mas também para aspectos da experiência humana como sentimentos de felicidade, tristeza, bem estar, e até mesmo sensações como a dor.


Quem sofre mais e o “direito de reclamar”


Nosso cérebro está constantemente atribuindo valores e ponderando objetos à nossa volta. Precisamos dessa função para sabermos se uma mochila é muito pesada para carregarmos ou quanta força precisamos exercer para abrir um pacote de salgadinho. Tudo fica ainda mais complexo se formos pensar no tempo que ficarei com a mochila nas costas ou no risco de derrubar os salgadinhos ao abrir o pacote. Este é o mesmo funcionamento que nos faz pensar “Está reclamando de barriga cheia…” quando assistimos pessoas famosas relatando seu sofrimento por não saírem de sua casa grande e confortável durante a pandemia.

Por mais estranho que possa parecer, a verdade é que o sofrimento proveniente do confinamento pode ser muito semelhante entre alguém que mora em um kitnet e alguém que mora em uma casa de dois andares. Julgar e atribuir um valor para este tipo de sentimento e experiência humana é muito difícil. A psicologia já desenvolveu diversas escalas e medidas para construtos semelhantes, entretanto a grande maioria se apóia em médias calculadas para populações específicas. Ou seja: são valores relativos àquele grupo de pessoas e não apresentam um valor absoluto por si só.


Nós funcionamos de forma parecida à utilizada na mensuração de escalas. Quando sentimos uma emoção, seja ela positiva ou negativa, automaticamente fazemos a comparação da emoção atual com a mesma emoção em outros momentos da nossa vida. Nessa comparação somos capazes de estabelecer uma relação ordinal, “esta é mais intensa que aquela”, e dessa forma chegamos a conclusão se estamos tristes acima ou abaixo da média. Mas esta é uma faca de dois gumes, sabe porque?


Para que sejamos capazes de lembrar de uma quantidade adequada de memórias nosso cérebro seleciona apenas memórias relevantes, ou seja, onde sentimos a mesma emoção. Isso causa um efeito onde, se estamos tristes, temos uma chance muito maior de lembrarmos de memórias tristes e não de memórias felizes. É por isso que existem momentos onde parece que tudo na nossa vida foi triste e deu errado quando, na verdade, temos diversas memórias que provariam o contrário mas estão guardadas em uma gaveta separada.


Porém esse sistema é válido apenas para nós, é uma experiência subjetiva de cada um visto que não somos capazes de usar as memórias dos outros para quantificar nossos sentimentos atuais. Portanto, voltando ao ponto inicial, talvez a tristeza e a sensação de sofrimento de uma celebridade em sua mansão e de uma pessoa em sua kitnet, durante o confinamento da quarentena, pode ser realmente muito similar em intensidade.


Mas se perguntas como “ qual o valor de uma vida?” ou “quem está sofrendo mais, A ou B?” dificilmente tem uma resposta, para que elas servem?


A importância deste tipo de pergunta está na reflexão que elas são capazes de nos proporcionar. Quando ponderamos o valor de nossa vida nos levamos a assumir uma visão mais abrangente de nós mesmos, uma visão que inclui tanto qualidades quanto defeitos, que avalia sem cair dentro da “peneira” das emoções. Quando nos perguntamos quem está sofrendo mais, A ou B; estamos observando a história de vida de uma pessoa com a mesma visão ampla da pergunta anterior. Somos capazes de perceber que dificuldades são desagradáveis mas também nos tornam mais resistentes a problemas futuros, que uma vida feita apenas em prazeres pode nos tornar frágeis se não formos capazes de nos colocar no lugar do outro e buscar aprender não apenas com as nossas experiências mas com das pessoas próximas a nós. Perguntas como estas podem até não nos oferecer respostas, mas trazem muitos benefícios da forma que são: perguntas.


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