"O terminal" e as nossas prisões

Esta semana convidei meus pais para assistir o filme "O terminal" de 2004. Como fazia um tempo que eu não escrevia um texto sobre um filme pensei que esta poderia ser uma boa oportunidade. A princípio minha ideia era explorar a situação do personagem principal, Viktor Navorski, interpretado por Tom Hanks, sob a perspectiva de alguém que se vê repentinamente sem país, sem casa, sem um local seguro para voltar ou ter como referência. Quantas vezes já nos sentimos assim? Completamente sem chão.


Ao longo do filme fui me distraindo com a trama e seus personagens. O velhinho indiano que insiste que Viktor é um agente secreto, o rapaz da comida que é apaixonado pela agente de imigração, a aeromoça que vive como amante de um homem casado, o policial gordo e, o vilão do filme, seu chefe pé no saco. Mas foi só no final do filme que fui perceber que todos estes personagens, assim como o principal, também estão presos a algo. Eu diria até que estão mais presos do que o próprio Viktor Navorski.


Em que as pessoas se prendem...


Quando pegamos a palavra preso e a deixamos fora de um contexto normalmente a primeira imagem que nos surge é a de uma pessoa que não pode se mexer ou se deslocar naturalmente. Seja por causa de uma algema, de uma grade ou de paredes. É difícil pensar que podemos estar presos por algo imaterial e subjetivo como sentimentos ou pensamentos. Mas a verdade é que estes são os maiores motivos pelos quais nos sentimos limitados ou sem ação. Quantas vezes você não precisou se afastar de uma situação para conseguir pensar claramente? Quantas vezes você não se viu fazendo algo, ou deixando de fazer, por impulso e acabou se arrependendo depois? Estas também são prisões que enfrentamos em nossas vidas.


Vamos voltar aos exemplos de dois parágrafos acima. O velhinho indiano, ele estava nos Estados Unidos pois tinha medo de voltar ao seu país e sofrer a pena pelo seu crime. O rapaz da comida tinha vergonha e sentia-se inseguro demais para se aproximar de sua amada. Ela por sua vez, assim como o policial gordo que acompanha o chefe de polícia, tinha um apresso pelo personagem principal mas não podia ajudá-lo por causa das regras e burocracias de seu trabalho, ambos sentiam-se de mãos atadas e sem alternativa. A personagem interpretada pela Catherine Zeta-Jones, a aeromoça, estava presa em um relacionamento onde seu amor não era correspondido e isso a consumia e maltratava fazia anos. E o chefe de imigração era incapaz de se colocar no lugar dos outros e, em seu orgulho, não conseguia olhar para as necessidades daqueles a sua volta e agir de acordo.


Cada um deles, por motivos diferentes, se via preso. Seja por medo, vergonha, burocracias ou orgulho. É durante o desenrolar da trama que estes personagens vão quebrando aos poucos as paredes de suas prisões. É conversando com Viktor que percebem ser capazes de fazer diferente, de viver mais e melhor o seu dia a dia. Mas e ele, em que estava preso?


Não podia sair do terminal, não podia voltar para casa, não podia entrar nos Estados Unidos, várias limitações físicas foram impostas; mas quando sentiu fome encontrou um jeito de ganhar dinheiro devolvendo os carrinhos. Quando isso lhe foi tirado inicialmente ficou triste e revoltado, mas não se deixou abater e aceitou a proposta do rapaz da comida ao invés de tentar lutar contra o "novo sistema". Mesmo a vergonha de sair de roupão ou tomar banho na pia do banheiro não foram suficiente para deixá-lo preso em uma situação de sofrimento. Convenhamos, precisa de ter muito desprendimento para andar de roupão no aeroporto!


Em diversos momentos vemos Viktor Navorski triste durante o filme. Mas diferente dos outros personagens seu sofrimento passa. Nos momentos em que não pode ser superado esse sofrimento é aceito e transformado em algo novo. Em nenhum momento o vemos tentando fugir ou gritando e esperneando ainda que em uma situação onde isso seria completamente aceitável. Mas por que?


A filosofia zen de "o terminal"


Dentro das diversas correntes da filosofia zen eu gosto muito de um conceito chamado "mente liberta". Como diz o próprio nome, esta é uma mente que não está presa. Se algo ruim acontece claro que ficamos tristes, mas ficar triste não desfaz o acontecido e nem ajuda a superá-lo. Se queremos muito que algo aconteça mas não temos total controle sobre aquilo, preocupar-se com o que está além das minhas possibilidades apenas causará sofrimento. A mente liberta é como uma bola que flutua sobre um rio, ela pode até bater em uma ou outra pedra mas jamais irá se prender e se fixar em lugar algum.


Muitas vezes nos prendemos em coisas como o medo, padrões e ideais impostos pelos outros, ou por nós mesmos, em verdades absolutas ou preconceitos. Nos prendemos no sentimento de desconfiança, nos fechando para pessoas que nos querem bem. Guardamos rancor e mágoas de pessoas que nos pediram desculpas. Nos prendemos até em sensações de satisfação e euforia que nos levam a buscar sempre mais sem nunca nos saciarmos. É necessário muito esforço e reflexão para entender que, ainda sem perceber, somos nós que estamos colocando as correntes e os pesos em nossos tornozelos. Mas como podemos nos libertar?


Praticar a aceitação é o primeiro passo. Precisamos aceitar que o mundo não é como gostaríamos que fosse. Que coisas ruins vão acontecer e que iremos sofrer. Porém quanto mais cedo aceitarmos o que acontece conosco mais rápido seremos capazes de seguir adiante, de superar o problema e seguir a nossa busca pelo que nos faz feliz. Aceitar não é se submeter. Submeter-se é desistir de si, aceitar é entender que assim como existe o eu existe o outro e que, nesta relação, é necessário conhecer a tristeza para sentir a verdadeira felicidade.




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