Reflexões sobre a série "Messias"


A série Messias foi lançada esse ano e está disponível na Netflix. Como o próprio nome indica, a séries acompanha um homem que, ainda que não diretamente, se diz um messias, um emissário de Deus.


"O que será que aconteceria se surgisse um messias nos dias atuais? Como as pessoas reagiriam? Qual seria a repercussão nas políticas nacionais e internacionais?"


Essas são apenas algumas questões abordadas na série. Nela temos personagens como Eva, agente da CIA que busca descobrir a verdade sobre esse autoproclamado messias; assim como Jibril, jovem que vive em uma zona de conflito no oriente médio e tem a sua fé no messias "testada" ao longo dos episódios.


Para termos uma conversa mais proveitosa sobre a série será necessário trazer algumas informações e eventos que acontecerão nos episódios, principalmente o final. Se você não quer saber agora como a história acaba aconselho que assista a série antes de continuar a leitura do texto.


SPOILERS A PARTIR DESSE PONTO!


No início a série se encontra em um ponto de equilíbrio, nos deixando em dúvida quanto a veracidade das afirmações feitas por Al-Masih (messias). Porém conforme ela vai se desenvolvendo ficamos cada vez mais certos de que tudo não passa de um golpe. Descobrimos o nome verdadeiro de Al-Masih, seu irmão nos conta sua história de vida, descobrimos até mesmo que ele frequentou a universidade e que foi internado em um hospital psiquiátrico. Destes fatos nós temos certeza, eles são comprovados na história.


Em comparação, Al-Masih nos oferece apenas incertezas ao longo da sua trajetória. Não sabemos porque ele levou Jibril e seus seguidores até a fronteira de Israel, não sabemos como ele curou o garoto baleado, como salvou a igreja de Felix e nem como andou sobre a água em Washington. Ao mesmo tempo que vimos tudo isso acontecer não somos capazes de compreender completamente estes eventos, e entre dúvidas e certezas estamos inclinados a escolher a segunda.


Nossos esforços para encontrar coerência e previsibilidade no mundo que nos cerca inicia muito cedo em nossas vidas. Exploramos e testamos hipóteses para entender a permanência de objetos quando bebês; aprendemos que a quantidade de líquido não muda de um copo para outro; sabemos o que irá acontecer quando um carro freia bruscamente. Passamos nossa vida eliminando dúvidas e buscando certezas.


Mas em qual destas duas situações se manifesta a fé?

Vamos pegar alguns personagens como exemplo. Logo no primeiro episódio temos uma cena onde Al-Masih está sentado próximo de uma fogueira conversando com alguns de seus seguidores, durante a conversa um deles diz que o protagonista está "citando as escrituras de forma errada". Isso irrita Al-Masih, que o expulsa do grupo. Zangado seu seguidor o xinga e vai embora. Guarde esse exemplo na mente e vamos para este outro caso, quando Eva está conversando com sua superior.


"Isso é um culto? É uma nova facção? O que sabemos sobre ele?" Essas são algumas das perguntas que Eva precisa responder. Apesar de suas respostas não serem conclusivas, existe uma certeza presente: este tal de Al-Masih não passa de um ser humano comum. Não há sequer possibilidade, tanto para Eva quanto para sua superior, de que exista uma resposta diferente. Tanto que a pergunta "ele é o messias?" sequer é feita na conversa. Em ambos os casos, de Eva e do seguidor citado, os personagens tem certeza de suas crenças. Por mais que elas sejam bem diferentes entre si.


O seguidor sabe como é o messias, sabe como ele deve ser, como ele deve citar as escrituras, como ele deve se portar. Não há espaço para dúvidas, para incertezas quando se trata de sua religião. Eva sabe como o mundo funciona, sua lógica, suas leis físicas, sabe que em um mundo desses não há espaço para um Deus, quem dirá um messias. Ambos personagens estão convictos de suas crenças e não são sequer capazes de considerar algo diferente. E o oposto? Quem seria esse personagem?


Para isso temos dois exemplos, dois personagens que iniciam cheios de dúvidas. Um deles é Jibril, que se mantém com dúvidas durante toda a série; e o outro é Felix, que abandona suas dúvidas gradualmente ao longo da história.


Durante sua trajetória Jibril raramente nos inspira confiança. Ou ele está seguindo um dito messias para o deserto, ou ele está preso na fronteira de um país vizinho, ou ele está abrigado na casa de um desconhecido tentando decorar um discurso que não foi ele quem escreveu. Em nenhuma dessas situações ele parece estar sob o controle, estar certo do que está fazendo ou deve fazer. Felix encontra Al-Masih em uma situação parecida. Sua fé está abalada, sua família em crise e sua situação econômica o conduz a medidas desesperadas. Porém ao longo de sua trajetória Felix começa a adquirir certezas.


É na dúvida e desamparo que vem a fé, o momento em que conhece Al-Masih é o início deste período. E quando ele está certo de quem é Al-Masih, está certo que tudo ficará bem, está certo do caminho que Deus reservou para ele, está certo que seu destino é Washington. É nesse momento que sua fé lhe abandona. É o momento em que ele está alienado tomando seu café da manhã, está distante de sua mulher, está mais preocupado com a roupa que Al-Masih irá vestir no programa de televisão do sogro. Pois agora existe apenas a certeza de seu sucesso, de que sua crise familiar terminou, a certeza de que está ao lado de Deus, de que é melhor que seu sogro.


A essa altura da série já sabemos que Al-Masih é Payam Golshiri, iraniano nascido em 1991 que tem ligação com Oscar Wallace, terrorista anarquista e ex-professor universitário. Assim como Felix, este é o momento que abandonamos o resto de nossa dúvida e aceitamos a certeza de que, no seriado, Al-Masih não passa de um homem comum. Porém é nos últimos minutos que temos a maior virada.


A última cena mostra Al-Masih, tendo sobrevivido a queda do avião, juntamente de Aviram e uma criança, que afirma ter visto Golshiri reviver Aviram. Todos estão em um campo florido no meio do deserto.


E agora? Será que Pagam Golshiri é quem diz ser?

E assim o seriado nos coloca novamente em uma situação de dúvida, em uma situação onde a fé se torna possível. Durante todo o seriado nos encontramos no dilema de acreditar ou não acreditar. Somos jogados em um estado de dúvida no qual tentamos nos agarrar a qualquer tipo de certeza que nos é oferecido. Seja a certeza de seus milagres ou a certeza da sua falsidade. Sabemos que aquela narrativa não é real, semelhante a filmes de super heróis ou fantasia. E justamente por isso nos permitimos tolerar, e até desejar, as incertezas.


Vamos fazer o exercício de trazer isso para a vida real: como você se sentiria sabendo que no oriente médio estão dizendo que o Messias voltou? Que ele andou sobre a água e curou uma criança baleada? Você gastaria suas economias para comprar uma passagem superfaturada de avião direto para Palestina? Talvez você esteja pensando “Claro que não!” ou então “Só se eu tivesse certeza!”. Chega a ser difícil pensar em fazer algo tão decisivo sem ter certeza, ou estar muito próximo disso.Na vida real não toleramos incertezas dessa magnitude. Somos muito rápidos em criar e nos agarrar em certezas, sejam elas grandes ou pequenas, baseadas em fatos ou não.


A frase que fica desse seriado é a de que a fé só é possível quando não há certeza. E por isso ela é tão presente na nossa vida e ao mesmo tempo tão difícil de ser estudada. Seja na forma de religião, de princípios morais, de leis físicas, etc. A verdade é que jamais teremos certeza de tudo e nos momentos que ela falha, resta apenas a fé para amparar nossa dúvida.

Qual é a sua fé?



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