Um mundo de vencedores e perdedores

Se você estava vivo durante os anos 80 e 90 provavelmente já viu o filme "Karatê Kid" certo? Se não viu certamente já ouviu falar. Ano retrasado o YouTube lançou uma série que dava continuidade a história de Daniel Larusso. Bom, na verdade não exatamente Daniel, mas Johnny, o vilão do antigo filme.


Vendo a primeira temporada da série me surpreendi com a quantidade de vezes que as palavras loser (perdedor) e winner (vencedor) aparecem nos episódios. Na escola acompanhamos dois grupos de alunos, os nerds perdedores e os populares vencedores. No mundo adulto vemos Daniel, um vencedor financeiramente bem sucedido, e Johnny, um perdedor solitário e endividado.


Como a série tem um foco maior no ex-aluno do dojo Cobra Kai, logo nos primeiros episódios, fica evidente que a derrota no campeonato retratado no filme de 84 ainda impacta a vida do antigo vilão. Em um mundo onde os rótulos de vencedor e perdedor não saem fácil, levar um chute no rosto e perder uma luta apenas acrescenta cola no selo e te garante ser enquadrado no segundo grupo, o dos perdedores.


Mas porque temos essa mania de dividir tudo em vitoria e derrota?


O pensamento dicotômico é algo que aprendemos desde muito cedo em nossas vidas. Por acaso você já viu um bebê chorando apenas um pouco? Ou somente com apenas um pouco de vontade de fazer cocô? Nosso mundo é dividido em dois. Nós temos o lado direito e esquerdo do corpo. Sim e não. Preto e branco. É ou não é. Essa divisão funciona muito bem. Mas aí está o detalhe: ela funciona bem quando precisamos de uma resposta clara, rápida e superficial.


Se eu perguntar onde fica a boca no corpo humano, você consegue me responder com direita ou esquerda? Entre o sim e o não, existe o talvez? O depende? E quanto a cor cinza? Mesmo o "é ou não é" pode ser flexibilizado. Um sofá não é uma cadeira, mas está mais próximo de ser uma do que um avião. Mesmo sabendo que o mundo não é feito apenas de dicotomias muitas vezes nos pegamos caindo nesse funcionamento.


Na série os personagens estão o tempo inteiro tentando se enquadrar no grupo dos vencedores e sair do grupo dos perdedores. Johnny tenta se estabelecer financeiramente; Daniel luta para não perder o contato com sua filha; Miguel quer fazer amigos na escola mas tem dificuldades para vencer a barreira que divide os dois grupos. Um dos amigos de Miguel, não vou me lembrar o nome dele, fala a seguinte frase:


"Zero a zero não é ruim, ainda é melhor do que perder de um a zero."

O rótulo de perdedor está tão entalhado nele que a possibilidade de ganhar não é nem considerada. E pior, se você tem certeza que vai falhar não tentar pode acabar parecendo o melhor resultado. Uma pessoa que não tenta não falha. Mas dessa forma ela também não aprende e não se desenvolve. A derrota não é encarada como um processo, como uma etapa do aprendizado, mas sim como um resultado final. Uma visão muito mais adequada e adaptativa é expressa pelo protagonista da seguinte forma:


"Eu era um perdedor como vocês, mas assim como uma cobra eu troquei de pele e deixei isso para trás."

Uma cobra troca de pele pois suas escamas não funcionam como a nossa pele, elas não conseguem crescer de tamanho com o passar do tempo. Por isso quando a cobra está ficando muito grande para sua pele antiga ela inicia o processo de descamação. Quando nos apegamos a rótulos somos como uma cobra que é incapaz de crescer porque não troca de pele.


Ninguém é 100%


Conforme conhecemos melhor os personagens vemos que mesmo aqueles apresentados como vencedores não tem uma vida perfeita. Eles também perdem e também passam por dificuldades em certas áreas de suas vidas. O mesmo vale para os perdedores. Ninguém é completamente incapaz e inapto em tudo. Para Miguel falta a atitude que complementa sua vontade e confiança, para Johnny falta a perspicácia e inteligencia que complementariam a sua tenacidade, mesmo Daniel, que começa como "O vencedor" da série, tem dificuldade e falta de habilidade para estabelecer e manter um bom vínculo com seus filhos.


A serpente no logo do dojo Cobra Kai, apesar de altamente venenosa, também tem seus predadores no mundo selvagem. Um deles é o mangusto, um animalzinho fofinho da família dos suricatos, que é famoso por sua habilidade em lutar contra cobras venenosas. Especialmente a naja. Mesmo a cobra, símbolo da série e do dojo de Johny, não é 100% vencedora. Os rótulos de perdedor e vencedor são apenas pólos opostos de uma linha repleta de mudanças, dificuldades e superações que é a nossa vida.


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